O revisor é um fingidor. Finge dominar o texto, mesmo sabendo que este o controla. O revisor finge ser inabalável diante das palavras, diante das pessoas. O revisor não pode ser inseguro. Qual empresa vai querer contratar um revisor que não seja preciso? O revisor tem incertezas. Quanto mais se prende às letras, mais dúvidas aparecem em sua caixa de locuções. Ele tem medo do ínfimo erro. Vive dentro de sua casa de vidro, lar artificial e perfeito criado por ele no maravilhoso mundo das técnicas; vive perdido no das ideias. O revisor é normal. Segue tão à risca a norma gramatical que chega a se martirizar quando esta escapa de suas mãos (calejadas pelas canetas). O revisor sente. Sente raiva ao esquecer a vírgula, sente vergonha ao fazer malabarismo para camuflar a colocação pronominal, sente medo de perder o debate morfológico, sente saudade. Saudade de quando podia errar.
O revisor sente. Ele, senhor absoluto e impecável textual, sente tanto que mal escreve. Quando um texto seu flui, acaba preso a um circuito de fórmulas estudadas, cada vez mais longe das emoções das verdadeiras palavras gritadas. O revisor é vingativo. Vinga-se daqueles que sabem descrever os sentimentos, dá apunhaladas com punhais esferográficos vermelhos e despeja toda a correção, detalhadamente, sobre quem é capaz de fazer o que a gramática não o permite.
O revisor tem medo do erro. Os errantes têm medo do revisor; fecham-se em grupos ortográficos erráticos, trocam textos entre si, e o revisor não pode ler. Há o risco da crítica. O que quase ninguém sabe é que o revisor é um errante comedido. É crítico consigo.
O revisor é só.