Sou a tímida mais sem vergonha que conheço. Enquanto ele me olha com seus olhinhos inocentes, mal sabe o que trago de mais imoral dentro das minhas ânsias. Ele, que me olha quase hesitando, derrama palavras supérfluas para introduzir um assunto inútil. Eu o cego com meus olhos graúdos, perfuro feito lâmina cada palavra ditada, divirto-me com seu olhar que evita ceder aos meus pedidos intrínsecos. Em segundos, meu olhar despe o olhar dele (e todo o resto), este que quase chega a implorar para que eu me detenha. Assim é o olhar dele, infantil, casto. Tão límpido que se torna incrédulo. Há algo naquele olhar de tão inocente que chega a tornar-se autossuficiente. Não é só o olhar; são os olhos. Os olhos dele, outrora cor de terra, vez em quando cor de mato, conhecem por si mesmos sua própria nuança. Eles se misturam com aquela segurança implícita do seu olhar e me encerram em minha totalidade. Ele não sabe o quão atraente se torna quando ergue as sobrancelhas, alegando argumento - e quanto imagino esse mesmo olhar fitando-me por entre minhas coxas. Chega a me cegar; despe até meus olhos graúdos: e todo o resto. E de que me valem as horas diárias em que encontro meu corpo, lembrando-me daquele olhar, se ao menos olhá-lo de frente não sou capaz? Ele é imoral. Eu hesito. Sou a sem vergonha mais tímida que conheço.
P.S.: Este texto é apenas um devaneio.